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Um ano sem inspeção ambiental veicular

por Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello

Luiz Vicente, coordenador dos cursos de Engenharia Civil e Produção, da Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

São Paulo, pioneira e referência em inspeção ambiental veicular, cujo início foi em 2008, no final do mês de janeiro de 2015, completa um ano sem poder executá-la. Para os paulistanos, imbuídos com a falsa ilusão de pagar compulsoriamente mais um tributo, um alívio momentâneo. Infelizmente, o resultado da ausência deste tributo se refletirá na saúde de cada um que reside na cidade.

Os ciclistas, incentivados por uma rede de tapetes vermelhos, conhecida ora como ciclofaixa, ora como ciclovia, exercitarão e aumentarão a capacidade respiratória em um ambiente nada propício de um recipiente misturado aos óxidos de nitrogênio, hidrocarbonetos, monóxido de carbono, aldeídos e o material particulado, que são livres em poluir o que quiserem, já que a única restrição que havia se extinguiu com um ato popular.

Decisões como esta, diga-se na época como uma “suspensão”, ficam claras as intenções com o passar dos dias… O pagador poluidor era feito na íntegra pelos paulistanos com os veículos cadastrados ao município de São Paulo. No entanto, como todo “jeitinho brasileiro”, veículos novos ou usados “fugiam” dos cadastros da cidade e ingressavam em outras cidades, fossem eles de pessoas físicas ou jurídicas, tudo pela fuga da tal da inspeção.

E o que deveria servir de estímulos para a ampliação da inspeção ambiental veicular, já mapeada, estudada e publicada pela Cetesb, conhecida como PCPV 2011-2013 (Plano de Controle de Poluição Veicular), deixou de existir.

A cidade de São Paulo sempre foi pioneira nas questões da mobilidade, foram elas com a implantação dos bondes como uma das primeiras no mundo a optar por este meio de condução e com o primeiro registro de um congestionamento de veículos em 1911 diante da inauguração do Teatro Municipal ou até mesmo do rodízio municipal, em atividade até hoje.

Desta vez, foram os dois, a primeira e a última a ter um sistema integrado com o Detran-SP, possível de realizar 22.000 inspeções ambientais em um único dia, com a opção de 16 locais estruturados.  Com mesmo visual e padrão de trabalho, o munícipe agendava a data e horário via website. Chegando no posto de inspeção, o condutor não poderia ficar mais de 30 minutos, meta esta da concessionária que geria toda esta complexidade. Todo o rigor fazia parte das conquistas da ISO 9001, ISO 14001 e OHSAS 18001 pela concessionária, conhecido como SGI (Sistema de Gestão Integrada).

Visitas de outros países, cidades vizinhas ou distantes, inclusive com inspeções similares, buscavam insistentemente conhecer como era possível fazer um número tão grande de inspeções, com controle e dinâmica, todas as unidades produtivas tinham um só comando: contribuir na melhoria da qualidade do ar. Um atendimento treinado e personalizado era feito aos condutores de veículos não aprovados no próprio local, assim como o call center, que recebiam reclamações, elogios, e faziam agendamentos aos munícipes. Artigos técnicos foram publicados e premiados, entre eles, o melhor artigo de 2012 no SIMEA (Simpósio Internacional da Engenharia Automotiva).

Diante de tanta complexidade, um trabalho de base iniciou-se em 2012 com o curso gratuito promovido pelo Sindirepa (Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios do Estado de São Paulo), que treinou mais de 30.000 mecânicos, capacitando-os para resolver e extinguir os excessos de poluentes jogados ao meio ambiente proveniente dos veículos não aprovados. A procura pelo treinamento era tanta, que as inscrições on line se encerravam no mesmo dia de abertura, tornando-se constantes as capacitações aos sábados.

Porém, tudo se perdeu. No andar dos próximos passos, a iniciativa é pedalar e usufruir dos ônibus mais baratos para quem anda mais. E, ao andar mais, mais estará exposto aos gases poluentes e ao material particulado. Como o incentivo de veículos coletivos abastecidos por combustíveis renováveis ainda não é ambientalmente representativo, as ações de mobilidade urbana tendem a ser favoráveis na percepção da população, mas não na redução de emissão de gases poluentes, que afeta de médio a longo prazo a saúde do paulistano.

Assim como o cigarro, não precisa fumar, basta estar exposto a ele.

*Luiz Vicente Figueira de Mello Filho é coordenador dos cursos de Engenharia Civil e Produção, da Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie – Campus Campinas. Mestre em engenharia automotiva, engenheiro mecânico, bacharel em administração de empresas e pós-graduado em Comunicação e Marketing.

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