Defesa do transporte sobre trilhos ganha livro

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Especialistas em mobilidade urbana lançam documento em defesa do transporte sobre trilhos nas regiões metropolitanas da América Latina

Da redação

Em atenção à recomendação do secretário Nacional de Transportes e da Mobilidade, José Roberto Generoso, de se fazer mais projetos, Constantin Dellis, chefe da Secretaria Geral da Associação Latino-Americana de Metrôs e Subterrâneos (ALAMYS), apresentou na 23ª Semana de Tecnologia Metroferroviária, evento que termina amanhã em São Paulo, o documento “Por que o desenvolvimento de projetos de transporte sobre trilhos é a melhor opção para a sustentabilidade das grandes cidades latino-americanas”.

Com esse documento sustentado por dados oficiais e de pesquisas, a ALAMYS e as entidades brasileiras que reúnem empresas públicas e especialistas em mobilidade urbana por meio de sistemas metroferroviários, querem mostrar às autoridades que decidem e financiam os projetos as vantagens técnicas, econômicas, ambientais e sociais. E porque a ampliação dos sistemas funciona como elementos estruturadores do serviço e como pontos de apoio à transformação das metrópoles.

O painel em que Dellis divulgou o documento mostrou três casos de mudanças obtidas após a construção e início de operações de linhas de metrô: a cidade do Porto (Portugal), Santiago (Chile) e Medellín (Colômbia).

Segundo o texto, a América Latina tem atualmente 647 milhões de habitantes, dos quais 79% moram nas cidades, em uma tendência crescente de urbanização

“O documento da ALAMYS está estruturado em dois segmentos principais, seguidos de uma súmula das conclusões e da indicação de referências concernentes aos dados e conceitos apresentados”, explicou Dellis.

O primeiro oferece elementos que indicam porque a América Latina deve redefinir o planejamento urbano, considerando, no caso dos grandes centros, a reformulação do papel dos sistemas de transporte público – em especial os sobre trilhos – para torná-los elementos de indução do progresso, da qualificação das cidades e do bem-estar de suas populações.

Na segunda parte são apresentadas as razões que justificam a implantação de projetos metroferroviários nas cidades latino-americanas. Os sistemas metroferroviários são mais rápidos, confiáveis e seguros, tem maior frequência, regularidade e tempo de espera, mais informações aos usuários, e conforto e segurança.

Segundo o texto, a América Latina tem atualmente 647 milhões de habitantes, dos quais 79% moram nas cidades, em uma tendência crescente de urbanização. Isso amplia a pressão por atendimento às necessidades de mobilidade que garantam acesso a bens e serviços, que só são atendidos por sistemas de alta capacidade e de forma integrada com outras modalidades. Esses sistemas contribuem para o desenvolvimento e o progresso das cidades assegurando às pessoas o direito de melhorar sua qualidade de vida.

Para mostrar os impactos do metrô no desenvolvimento da cidade, Jorge Delgado, presidente do metrô de Porto, Portugal, contou que a única linha de 66 km está funcionando desde 2006 e foi construída aproveitando linhas ferroviárias que ligavam a cidade ao porto. A cidade tem atualmente 1,7 milhão de habitantes e o metrô atende à maioria da população porque funciona integrado à linhas de ônibus. Transportando 12 mil passageiros por hora/sentido ou 58 milhões por ano, o metrô gera receita anual de 42 milhões de euros.

Pertencente ao governo, o metrô é operado por empresa privada em contrato de curta duração. A escolha do novo operador está marcada para 2018 em substituição à empresa contratada há seis anos. Além de operar, a empresa faz a manutenção de rotina ficando a mais pesada para a equipe do metrô.

Roland Zamora, gerente de Estudos de Metrô de Santiago, Chile, diz que a cidade ficou conhecida pelo Transantiago, sistema de corredores de ônibus que contribuiu para reduzir os congestionamentos porque impôs restrições ao tráfego de automóveis e diminuiu os estacionamentos.

Mas são os 103 quilômetros das cinco linhas do metrô que atendem ao maior número de passageiros da capital chilena, que tem 6,5 milhões de habitantes. O sistema continua crescendo e a sexta linha deve ser inaugurada ainda neste ano. A sétima está prometida para 2025, quando a cidade deverá chegar aos 8 milhões de habitantes e o metrô deverá ter 174 quilômetros e 174 estações.

Zamora conta que a população chilena, que ficou muito tempo calada no período da ditadura Pinochet aprendeu a protestar e participar. O metrô mantém constantes reuniões com os grupos organizados para decidir mudanças nas linhas, sobre o traçado e a localização das estações novas.

Esse relacionamento com a população também foi apontado por Juan Álvaro Gonzalez, especialista de Planejamento do Metrô de Medellín, Colômbia. Esta cidade utiliza o metrocable, espécie de metrô de superfície que opera em duas linhas de trilhos ferroviários e cabos aéreos. Com 4,3 quilômetros de extensão e seis paradas, o sistema substituiu os antigos bondes. Utiliza doze veículos que circulam pelo canteiro central da principal avenida da cidade, que tem 360 mil habitantes.

O sistema mudou a paisagem de Medellín, assegura Zamora, pois os muros foram pintados por muralistas num total de 360 obras.