Destaque Eustaquio Sirolli

Câmbio automatizado, Brasil na frente

por Eustáquio Sirolli

Eustáquio Sirolli, gerente de Desenvolvimento de Produto na Foton Caminhões.

Eustáquio Sirolli, gerente de Desenvolvimento de Produto na Foton Caminhões.

O tema câmbio automatizado é intrigante e abrangente no seu contexto técnico e mercadológico. Segundo fonte de um fabricante de câmbios, fui informado que o Brasil é o país com maior nível de aplicação desse componente com automatização dos engates e, independente de ser verdade ou não, o fator relevante é que os grandes fornecedores de caminhões pesados do mercado nacional oferecem o item em praticamente 100% dos seus caminhões pesados. Seja totalmente automatizado, sem pedal de embreagem, ou semi-automatizado, ainda com pedal de embreagem.

Aqui gostaria de fazer um depoimento em forma de narrativa, assim teremos condições de entender a razão dessa nossa situação, aliás muito boa para o mercado, para o transportador, para a mobilidade e para o condutor. Vamos lá, começando pela situação vigente numa época não muito distante, quando duas marcas de caminhões tinham um sistema de engate de marchas muito bom, e uma outra marca tinha a mesma função, mas não tão amigável para se engatar.

Essa última precisava fazer algo para mitigar essa desvantagem técnica. Discussões foram feitas, possibilidades técnicas foram avaliadas e chegou-se ao câmbio semi-automatizado como a alternativa mais rápida e que traria uma vantagem argumentativa aos seus produtos, com benefícios expressivos para o transportador, pois com isso a introdução de novos condutores seria facilitada, já que um grande problema do aprendizado de motoristas de caminhões pesados estaria resolvido com a simplificação dos engates das marchas.

Nessa fase 1, todos os veículos receberam o cambio semi-automatizado, mas o objetivo da empresa era a aplicação do cambio totalmente automatizado, sem o cansativo pedal de embreagem e alavanca de engates das marchas.

Então, em 2010, se não me falha a memória, essa mesma empresa aplicou o câmbio totalmente automatizado nos seus caminhões pesados, ficando só alguns modelos com o semi-automatizado. Atualmente, praticamente todos os veículos rodoviários e fora-de-estrada já possuem esse componente. Consequência disso foi que todos os fabricantes nacionais de caminhões tiveram que seguir o concorrente que iniciou essa onda pró-automatização dos câmbios.

Então fica aquela sensação que o mercado evoluiu rapidamente em direção a uma tecnologia top, que era aplicada só em veículos/caminhões mais sofisticados, mas na verdade a sua introdução foi para melhorar um sistema que era oferecido ao mercado e não tinha o nível dos seus concorrentes mais diretos. Em outras palavras, eliminar uma desvantagem técnica, mas a análise tem que ser um pouco mais aprofundada.

Vamos dar mais um passo nessa direção, esclarecendo que a automatização do câmbio elimina a alavanca mecânica de troca de marchas, que é custosa, elimina o pedal de embreagem, que tem muitos detalhes a onerar sua fabricação, e ainda pode, em muitos casos, eliminar os sincronizadores, que também tem seu custo, pois a eletrônica faz os engates e também permite eliminar aquele “buraco” no assoalho dos caminhões, que demanda cuidados especiais para evitar entrada de ruído, poeira e calor no interior da cabine.

Resumindo, ao se fazer um balanço entre câmbio mecânico e câmbio automatizado, o custo total no veículo não deve ser um pênalti. No mínimo, fica compensado pelo que sai e pelo o que entra em termos de componentes.

Agora os verdadeiros benefícios da automatização dos câmbios são:

  • Segurança, pois as engrenagens estarão sempre acopladas ou monitoradas nos casos de “banguela eletrônica”, função que o cambio explora para economia de combustível;
  • Conforto, já que quem faz os engates é a eletrônica embarcada;
  • Proteção ao trem de força, já que trancos são evitados;
  • Facilidade para contratação de motoristas menos experientes, já que um grande problema de treinamento de motoristas para veículos com cambio mecânico foi eliminado;
  • Bem importante, o consumo médio da empresa melhora muito, pois nivela os motoristas menos experientes aos mais experientes, com menor dispersão de consumo.

Na essência, o caminhão torna-se mais “humano”, permitindo ao motorista concentrar-se na condução do veículo ao invés de ficar “brigando” com o sistema de engate mecânico. No fim, um produto que custa na faixa de 350-600 mil reais, merece algo mais tecnológico do que uma “vareta” para trocar as marchas!

A Volvo denomina seu cambio totalmente automatizado de I-Shift e tem a função I-See, que avalia a topografia com antecedência, a Scania vai de Optcruise e a Mercedes de Powershift, ou seja, todas estão com o item praticamente de série. Nada mais justo com um mercado de dimensões continentais e rotas de milhares de quilômetros, que agora podem ser vencidas com mais conforto, economia e segurança.

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