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Martin Mitteldorf

Eles virão, é certo. Resta saber apenas quando os chineses irão desembarcar no Brasil para concorrer diretamente com as filiais de outras montadoras aqui instaladas. A grande pergunta que se faz é quem, neste caso, deve temer a concorrência direta dos chineses. Existiriam razões para os líderes locais entrarem em alerta ou os carros chineses não assustam ninguém?

Melhor prestar atenção na trajetória recente de forte agressividade externa promovida pelo país asiático sob comando do estado. Em pouco mais de cinco anos, a China deixou de ser apenas um mero importador de utilitários para se tornar exportadora de mais de 500 mil unidades veiculares para os quatro cantos do mundo. O desempenho colocou a indústria automobilística entre os pilares do setor terciário do país, até então caracterizado principalmente pela produção de material têxtil, equipamentos eletrônicos e siderurgia. Após uma década de crescimento vertiginoso, as montadoras chinesas já ocupam a segunda maior fatia do mercado mundial de automóveis, atrás apenas da grande potência norte-americana. E o país reforça suas intenções de transformar as empresas domésticas em fortes concorrentes globalizados, por meio de marcas como Chery e Geely. A mesma ambição, encorajada pelo governo, não pode ser descartada nem ignorada pelos outros países à frente das estatísticas, como Estados Unidos, Alemanha e Japão.

E no Brasil, seria diferente? Existe uma verdade que não deve ser ignorada: a China ainda tem muito que aprender para se nivelar aos concorrentes e disputar um mercado cada dia mais exigente. Apesar do inegável salto quantitativo na produção, impulsionado especialmente pelo baixo valor das matérias-primas e da mão-de-obra local – que resultam num preço final bastante convidativo – as montadoras chinesas ainda sofrem com a baixa qualidade do produto e com a falta de foco estratégico para a conquista do nosso mercado. Pesquisas recentes mostram que a primeira fraqueza foi drasticamente exposta nos diversos testes de segurança feitos na Europa e em outros países desenvolvidos: o desempenho de veículos de marcas como Chery, Geely, Brilliance e FAW (First Automobile Works) foi pífio e, em alguns casos nem sequer houve pontuação. A origem dessa falha, ou pelo menos grande parte dela, está nos baixos preços aos quais a marca está relacionada, como parte da estratégia adotada para fortalecer sua participação no mercado. No afã de deter os preços mais baixos do mercado, a qualidade é relegada ao segundo plano.

Isso traz à tona outra fraqueza perceptível, dessa vez de natureza estratégica. As montadoras chinesas precisam antes vencer a batalha da comunicação para reverter uma imagem que reforce não somente o baixo custo do produto, mas também evidencie seu valor e qualidade. Isso facilitaria sua penetração nos mercados emergentes, principal alvo da indústria chinesa, tornando-a mais competitiva e confiável. Projeções atuais apontam para o aumento da demanda por carros baratos, assim como a abertura do comércio ocidental para veículos chineses. O que falta às montadoras como Chery e Geely é priorizar os mercados-alvo para evitar o desperdício de esforços, ao mesmo tempo em que desenvolve um sistema rigoroso de avaliação de qualidade, que englobe todas as fases do processo de produção, para entregar um produto final à altura da concorrência.

A entrada no mercado brasileiro, visando à produção local, também esbarraria em outra questão fundamental: a necessidade de cumprir o índice de nacionalização na compra de autopeças e demais componentes. O que, por si só, promove certa equalização de preços na fabricação e montagem de automóveis. Sem contar os salários pagos aos trabalhadores, entre os mais altos na média nacional – e bem acima do praticado com a mão-de-obra chinesa. Vista por este aspecto, a invasão das montadoras chinesas esbarraria em uma barreira natural que tornaria quase impossível a prática de preços muito diferentes dos demais concorrentes. Outros pontos críticos para os chineses são a notória falta de metodologias de produção mais avançadas e a falta de apuração na arte-final, que deixa os veículos com acabamento e design pouco atraentes para o gosto ocidental. Os chineses têm que avançar muito antes de efetivamente representarem uma ameaça aos líderes locais.

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