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Hiroshi Matsumaga

Normalmente os transportadores classificam os gastos com combustíveis e pneus entre os 3 ou 4 maiores custos operacionais de uma frota e, por este motivo, adotam uma série de iniciativas para elevar a média de quilometragem/litro de combustível e para diminuir o custo/quilômetro rodado dos pneus. Podemos listar as seguintes iniciativas como algumas das normalmente adotadas para diminuir os custos com combustíveis: treinamento de direção econômica para motoristas, plano de manutenção preventiva e regulagem de bombas e bicos injetores, definição de metas de consumo e planos de incentivo para motoristas que alcançam os objetivos, uso de kits aerodinâmicos nos veículos e veículos com controle eletrônico de funcionamento de motor e câmbio. Para pneus podemos citar manutenção preventiva dos pneus (calibragem, alinhamento, balanceamento e emparelhamento), definição do melhor pneu novo para a aplicação (desempenho quilométrico, recapabilidade, resistência a danos, etc.), e definição da melhor reforma (desempenho quilométrico, recapabilidade, confiabilidade, etc).

O que nós verificamos é que normalmente nenhuma destas iniciativas é conduzida considerando ganhos cruzados. O que queremos dizer é que não se considera se uma determinada ação relativa a redução de custos com pneus tem a possibilidade de gerar ganhos em relação a consumo de combustível e vice-versa. Outro ponto constatado é que, em geral, os transportadores alocam maiores recursos para o gerenciamento de combustíveis do que para o de pneus, por dois motivos principais: a conta de combustíveis é consideravelmente maior do que a conta de pneus. Ou seja, o valor gasto com combustível anualmente em um caminhão pode facilmente ultrapassar R$ 80.000,00, enquanto que para este mesmo veículo o gasto anual com pneus deve ficar em torno de R$ 12.000,00. No Brasil, um pneu de caminhão possui em média 3 ciclos de vida – a banda original e mais duas recapagens, e o tempo necessário para que a carcaça seja sucatada pode chegar a 4 ou 5 anos. Desta forma, para poder verificar se determinados investimentos na manutenção de pneus geram um retorno adequado, o transportador terá de coletar dados e acompanhar a vida destes pneus por todo este intervalo de tempo. O mesmo não ocorre com combustível, pois no final de um ou dois meses já é possível aferir com razoável margem de segurança se houve uma redução no consumo de combustível.

É quase consenso entre todos os principais fabricantes de pneus novos que as seguintes situações geram grande perda de quilometragem: pressão de calibragem inadequada – redução de até 25%; emparelhamento de duplos inadequado – redução de até 25%; alinhamento incorreto – redução de até 25%, balanceamento inadequado – redução de até 20% e desenho de banda inadequado – redução de até 40%. Ou seja, são todos fatores que, combinados, podem gerar uma grande perda de recursos para o transportador mas, como mencionado anteriormente, como é muito difícil quantificar estes potenciais redutores de desempenho dos pneus, normalmente os investimentos para controlar todos estes pontos são pequenos e, em certos casos, sequer são realizados.

O que a maioria absoluta dos transportadores não conhece é que, ao investir num programa de gerenciamento de pneus, eles irão colher frutos também na conta de combustível. É que os pneus que equipam o veículo são um dos inúmeros fatores que afetam o consumo de combustível. Há vários fatores que influenciam o consumo de combustível. Entre eles podemos destacar: eficiência dos sistemas do veículo: motor, câmbio e transmissão; estilo de condução do motorista: trocar de marcha na hora certa, não acelerar desnecessariamente, entre outros fatores que contribuem para a redução do consumo de combustível; topografia: no plano o consumo é diferente do que em terrenos com topografia acidentada; manutenção do veículo: eixos desalinhados, lubrificação deficiente de componentes, tudo afeta o consumo; condições do tempo: rodar contra o vento aumenta o consumo e quanto maior a velocidade do vento, maior o consumo; temperatura ambiente: quanto mais fria a temperatura ambiente, mais denso é o ar e, portanto, maior o arrasto aerodinâmico do veículo; superfície da via de trânsito: quanto maior a rugosidade, maior a resistência de rolamento.

Há ainda vários outros fatores como carga do veículo, condições de tráfego, velocidade, configuração aerodinâmica do veículo, traçado da pista, etc. mas, voltando aos pneus, eles influenciam o consumo de combustível devido à resistência ao rolamento (RR). Conforme os pneus giram ao movimentar o veículo, é criada uma força de resistência contrária ao sentido de rolamento. Duas fontes de perda de energia compõem esta força: uma criada pela flexão da parede lateral do pneu e outra pela deformação e compressão da banda de rodagem contra o solo. Quanto maior a intensidade desta força, maior a RR e, consequentemente, maior o consumo de combustível.

A RR dos pneus varia sobre a influência de vários fatores, que podemos classificar em 2 grupos:

Fatores ligados à construção do pneu: tipo de construção: radial de perfil baixo, radial ou diagonal – a construção de cada pneu influencia a forma como os flancos e a banda de rodagem contraem e flexionam conforme o pneu roda. A RR tende a ser crescente quando se vai de pneus radiais de perfil baixo, para pneus radiais e diagonais; tipo de desenho da banda de rodagem: blocos, misto e liso – desenhos em bloco possuem maior RR do que lisos; profundidade da escultura: quanto menor a profundidade de escultura, menor a RR; área de contato com o solo (footprint): quanto menor a área de contato com o solo menor tende a ser a RR – uma menção deve ser feita ao eixo de tração que necessita de uma área mínima para poder transmitir a força do motor para o solo, de forma a não ocorrer micro patinagens que possam elevar o consumo de combustível; composto da banda de rodagem – diferentes compostos possuem diferentes índices de resistência ao rolamento.

Fatores ligados à manutenção dos pneus: calibragem: pneus com pressão menor do que a recomendada aumentam a RR; alinhamento: pneus e eixos desalinhados, por não estarem rodando em um ângulo de 180° com a estrada, apresentarão uma maior RR; balanceamento: a vibração causada pelo desbalanceamento tende a aumentar a RR; montagem: montagem incorreta do conjunto pneu + roda e/ou a fixação incorreta do conjunto no veículo irão causar vibrações que tendem a aumentar a RR.

Contudo, como poucos estão atentos para os efeitos que mudanças em determinados fatores geram sobre outros, no caso pneus sobre combustível, o mercado em geral não se atentou para o fato de que existem oportunidades interessantes no gerenciamento dos custos destes dois itens de forma conjunta. Por exemplo, recursos investidos para garantir uma calibragem melhor dos pneus, no alinhamento de todos os eixos e do balanceamento de todos os pneus do veículo (inclusive os dos eixos de tração e livres) podem trazer ganhos consideráveis não apenas na redução do custo/quilômetro rodado dos pneus, mas também na redução do consumo de combustível. Como a conta de combustível é considerável, qualquer redução de 4 ou 5% é extremamente significativa. Além disto, há o benefício de se poder verificar o retorno do investimento realizado rapidamente. Isto porque, como mencionamos anteriormente, os ganhos em redução do consumo de combustível podem ser quantificados em um espaço de tempo pequeno quando comparado com pneus. O desafio aqui é que as variações percentuais não são da ordem de 20 ou 25%, mas sim inferiores a 10% na grande maioria dos casos. Desta forma, nem sempre é fácil verificar a redução no consumo de combustível, especialmente devido ao fato de que existem muitas outras variáveis que irão afetar o mesmo.

Obviamente, o quanto vai se reduzir o consumo de combustível ao adotar os procedimentos normalmente recomendado pelas empresas de pneus aos transportadores, irá variar conforme o quadro de cada empresa em relação ao gerenciamento de pneus. Quanto mais desenvolvido for o programa de gerenciamento na empresa, menores serão os ganhos na redução de combustível e vice-versa. Cada empresa deve coletar e analisar os dados relativos a sua operação para verificar a viabilidade de realizar os investimentos necessários para reduzir seus custos operacionais.

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